Infelizmente a história se repete. Há aqueles que, não sei se por purismo ou por ingenuidade, como o Ernesto, pretendem justificar um erro pelo outro. Foi assim no golpe de 64 no Brasil, foi assim na Venezuela de Chávez e está sendo assim em Honduras.
Como não confio na imprensa brasileira, fui até o New York Times, CNN, BBC e outras fontes para me informar. Não há um único apoio sequer ao novo governo, a OEA e todos os países que se manifestaram exigiram a manutenção do presidente Zelaya no cargo. Se o presidente Zelaya cometeu um erro, foi o de afrontar a Suprema Corte, o Congresso e as forças armadas tudo ao mesmo tempo. Ele erro feio no cálculo político de seus movimentos e pagou caro por isso.
O fato é que ele foi deposto ilegalmente com base numa fraude. Para os ingênuos que pensam que a ditabranda recém instalada em Honduras será civil e com data marcada para término, lembro um pouco de nossa própria história. Na virada de 31 de março para 1º de abril de 1964, o presidente do Congresso Nacional, Auro Moura Andrade, declarou vaga a presidência da república, com o presidente João Goulart em território nacional, enquanto as tropas do general Mourão Filho se deslocavam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. Foi, das mesma forma como em Honduras, uma proclamação “legal” do Congresso, com um civil colocado na presidência (Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara) e com suporte dos militares somente na manutenção da ordem nas ruas.
Os ingênuos de então, à esquerda e à direita, incluindo os de centro, acreditavam que a “normalidade” constitucional seria retomada em breve, com eleições democráticas. O resto da história todos sabemos, uma ditadura sanguinária que roubou os sonhos de uma geração, assassinou, perseguiu e exilou milhares de cidadãos e patriotas.
Que não se enganem. O que houve em Honduras não é justificável de forma alguma. Não cabe relativizar, contextualizar, dizer que Zelaya agiu contra a ordem ou contra a legalidade. Toda e qualquer tergiversação neste momento é antidemocrática e pró golpista.
Rigorosamente, ele não cometeu crime algum, pois realizar um plebiscito, ou consulta ou o que quer que fosse, não implicaria aceitação do resultado desse plebiscito pela institucionalidade estabelecida. Caso fosse assim, qualquer enquete que se fizer e que for considerada, pelas forças que detêm o poder econômico e que controlam a imprensa, como um bom motivo para executar um golpe assim será usada, dado o precedente hondurenho, e então qualquer país está sujeito a este tipo de manobra.
A teimosia de Zelaya foi o pretexto para um golpe que, com certeza, já estava sendo articulado há tempos. Citarei o New York Times sobre a preparação para o golpe, para mostrar que a tentativa de Zelaya de fazer a consulta na marra foi meramente um pretexto para executar um golpe previamente preparado: “Com a escalada da crise, enviados do americanos começaram nos últimos dias conversações com membros do governo hondurenho e das suas forças armadas num esforço para deter um possível golpe. Um alto funcionário do governo americano, que se dirigiu aos jornalistas na condição do anonimato, disse que os militares puseram um fim àquelas discussões no domingo.”
(http://www.nytimes.com/2009/06/29/world/americas/29honduras.html)
Esta declaração mostra com suficiente clareza que o golpe já vinha sendo orquestrado e que qualquer ingenuidade na avaliação do que está ocorrendo em Honduras só beneficia os golpistas. Lembro que Honduras, com o empenho de Zelaya, aderiu recentemente à ALBA, o que aumentou ainda mais a ira das classes dominantes hondurenhas contra o seu presidente democraticamente eleito.
É interessante usar o Google e buscar mais informação sobre o que está acontecendo lá. Veja, por exemplo, a declaração do embaixador venezuelano, afirmando que diplomatas foram agredidos pelos golpistas:
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=396259
Ou a afirmação de que chefes militares do golpe foram treinados pelos EUA e fizeram parte dos esquadrões da morte dos tempo mais negros da ditadura hondurenha:
http://www.southernstudies.org/2009/06/key-leaders-of-honduras-military-coup-trained-in-us.html
(Este artigo foi postado também no blog do Nassif com algumas pequenas diferenças)