Para o PiG* a reeleição de Chaves é ditadura, a de Uribe não
Na leitura matinal dos jornais me deparei com matéria do Estadão sobre a vitória no congresso colombiano da proposta de mais uma reeleição para Uribe. Eufemisticamente o jornal trata o terceiro mandato como “segunda reeleição”, clara tentativa de criar confusão e amenizar a possibilidade de crítica. A votação da proposta foi eivada de vícios como compra de votos e favorecimentos a aliados de Uribe.
Segundo o jornal, que não se importa em manter um correspondente em Bogotá e usa as notícias da BBC, “a lei foi aprovada com 85 votos a favor e 4 contra, em meio a denúncias de compra de votos e de supostas irregularidades na arrecadação dos fundos para a promoção do projeto de referendo. A oposição, liderada pelo Partido Liberal, se retirou do Parlamento no momento da votação.”
A minha questão não é quanto ao processo de votação do congresso colombiano, mas com os dois critérios da grande(?) imprensa brasileira. A Venezuela legitimamente, por maioria no congresso, aprovou uma nova constituição, uma nova institucionalidade que permitiu a reeleição e a democracia direta através de plebiscitos e a possibilidade da revogação de mandatos através do voto popular. Hugo Chávez venceu várias disputas eleitorais, se não me falha a memória nove. Ele venceu eleições presidenciais, plebiscitos, referendo revogatório e seus aliados venceram as disputas com a oposição que diminui cada vez mais.
Mas, segundo a imprensa tupiniquim a Venezuela é uma ditadura, enquanto a Colômbia é um país sério. Não há uma só crítica ao militarismo de Uribe, não se fala a verdade sobre as bases militares dos EUA na Colômbia, nada se fala na construção da Colômbia para cumprir na América Latina o papel que Israel cumpre no Oriente Médio. Se há um fator de desestabilização na América Latina hoje ele é Uribe, e não Chávez, nem Correa ou Morales.
Também nenhuma palavra sobre os esquadrões da morte de Uribe, os grupos para-militares, o financiamento de Uribe pelo tráfico de drogas, o papel da CIA e do exército dos EUA no fomento à violência na Colômbia, os assassinatos de opositores. Muita mentira também sobre as FARC, sobre a guerra civil e sobre as condições de vida do povo colombiano.
Colômbia aprova referendo para terceiro mandato de Uribe
É interessante ver como a imprensa brasileira não se preocupa em fazer a cobertura da América Latina por ela mesma. Os jornalões brasileiros compram essas notícias de agências internacionais, como a BBC. Compare o que o Estadão publicou com o texto da BBC:
Matéria da BBC sobre a reeleição de Uribe
*PiG é o Partido da Imprensa Golpista segundo Paulo Henrique Amorim
13 de setembro de 2009 às 15:50
Parabéns pelo seu blog, ao qual acedi através da leitura dos seus artigos na Tribuna de Debates.
Gostava de deixar um comentário sobre o generalizado uso da expressão “P.I.G.”.
Em época atrasada, chegou-se a chamar à grande Imprensa o “Quarto Poder”. O debate posteriormente realizado permitiu ultrapassar esse erro político na avaliação do papel desta imprensa. Entretanto, entre nós, esquerda, aqui no Brasil, vai-se vulgarizando a designação de Partido da Imprensa Golpista. Considero que é uma designação politicamente equivocada - aliás, na esteira daquela outra antiga e errada designação que mencionei acima. A grande Imprensa, a brasileira como generalizadamente todas as outras nacionais, não é um poder nem é um partido. É um instrumento de intervenção política, propriedade e uso do grande capital, que assim intervém com meios poderosos na luta das ideias, na luta ideológica e política, ao serviço exclusivo dos interesses da grande burguesia local - nalguns casos, p.ex. a CNN, ao serviço “global” do imperialismo.
Porquê estas considerações? Elas resultam da ideia que a equivocada designação de PIG acaba desempenhando uma função de diversão, simultaneamente política e ideológica. Com efeito, induz a ideia de uma “independência” política, de uma autonomia de objectivos de classe, ambas falsas, como se esta imprensa fosse mais um partido a somar a tantos outros. Nas grandes cadeias de televisão e nos grandes grupos editoriais intervêm direcções, editores e jornalistas(?) que são verdadeiramente funcionários dos seus proprietários, eles mesmos detentores - directos ou associados - do grande capital nacional. Na permanente luta de classes - entre e intra -, claro que há contradições e conflitos, claro que os artigos, reportagens, textos publicados, a cada momento exprimem essas contradições de segmento ou de grupo no interior da classe capitalista, aparentando por vezes, por isso, uma falsa independência redactorial que não existe. Na grande Imprensa, mandam os mesmíssimos interesses que mandam no pessoal político de turno - ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores, etc. Sejam os interesses dos banqueiros, sejam dos latifundiários, sejam da grande burguesia industrial, aliás crescentemente concentrados e centralizados, “fundidos” e associados ao imperialismo.
Daqui resulta uma conclusão. Para a esquerda - a que queira ser consequente -, é imperioso designar e tratar a grande imprensa como uma extensão específica de um mesmo e único aparato de poder político ao serviço de uma mesma classe: a grande burguesia. Por tal razão, não lhe chamemos “poder”, ou “partido”. Directores, editores, chefias de redacção, jornalistas, articulistas, analistas e comentadores admitidos e encartados, todos eles exercem, de um ponto de vista de classe - aquele que a nós, comunistas, interessa - a função de agentes políticos dos interesses do grande capital.
Visar esta grande imprensa como se fosse algo independente (e acima das classes), deixando de visar, por exemplo, o ministro Meireles ou o ministro Reinhold Stephanes é deixar desarmados aqueles que necessitamos mobilizar para o nosso lado, isto é, o proletariado e a classe e camadas suas aliadas da pequena-burguesia.
A situação nestes meios de comunicação ( por vezes chamada “social”) exige a nossa vigorosa denúncia, sem dúvida. Mas como uma parte do sistema dominante a denunciarmos - e não como algo que lhe seja alheio ou independente, como a designação PIG pode involuntariamente fazer supor aos que nos ouvem ou escutam.
A própria Conferência convocada por Lula só será efectivamente útil se conseguir, antes de tudo o mais - reformas, nova legislação, nova política, meios públicos -, deixar claro a quem pertence a grande mídia e a que interesses de classe está subordinada.
Saudações fraternas.